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Upside Down

Um blogue de uma futura (e esperançosa) jornalista, que vê na escrita um refúgio para os bens e para os males da vida.

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Um blogue de uma futura (e esperançosa) jornalista, que vê na escrita um refúgio para os bens e para os males da vida.

PESSOAL: "A morte é a curva da estrada"

De vez em quando, no meio de toda a poeira dos meus dias, lembro-me de uma pergunta que há tanto tempo paira na minha cabeça e à qual nunca consigo responder: o que é a morte?

A morte está muitas vezes no meu pensamento, não porque seja pessimista ao ponto de pensar que toda a gente pode morrer a qualquer altura, mas porque só muito tarde tive noção da sua existência e, como tal, sinto-a mais presente no meu dia-a-dia, pois desde que a conheci nunca mais me esqueci dela.

Até aos meus 14 anos pensava que a morte só acontecia aos outros. Ela existia, sim, mas não existia na minha vida, na vida das pessoas que amo. A morte era uma coisa que acontecia a pessoas afastadas de mim, mesmo que algumas até fossem da minha família. Família mais afastada. Para mim era impensável as pessoas que amo morrerem enquanto eu fosse nova, porque as pessoas que amo teriam de estar presentes nos momentos mais marcantes da minha vida, era por isso que se chamavam família e amigos, era por isso que estavam ao nosso lado. Chamem-me ingénua se quiserem, talvez o fosse, mas era feliz assim e quem me dera voltar a sê-lo. 

Um dia, a vida tirou-me essa ingenuidade. O mais curioso é que é a vida que nos traz a morte. Estavamos a 14 de Outubro de 2010. Uma quinta-feira cheia de sol que nunca mais esquecerei. O meu avô estava internado há 12 dias e eu não o tinha ido ver, porque ele ia voltar. Já tinha ido tantas vezes para o hospital, tendo sempre voltado, qual seria a diferença desta vez? 

O que é certo é que não voltou. Não voltou a bater-me à porta para saber o resultado dos jogos do Benfica, não voltou a tropeçar no carregador do meu computador (deixando-me completamente zangada por causa disso), não voltou a abraçar-me até aos ossos e a dizer "estás quase do tamanho do avô", não regressou a casa depois de um jogo de cartas no café. Nunca mais voltou e foi aí que eu percebi que as pessoas que amamos também morrem. 

Já passaram quase 5 anos, estaria provavelmente agora na fase da aceitação. Mas não estou. Quem é que em seu perfeito juízo aceita que a vida nos leve as pessoas que mais amamos? Era suposto ele ter-me visto acabar o secundário, ter conhecido o meu namorado, ter-me visto entrar na universidade. Era suposto ele ir ao meu casamento, com o casaco que ele tinha para todos os casamentos das pessoas de quem ele realmente gostava.

Já esqueci a voz dele. Dói muito. Mas o pior não é esquecer. O pior é continuar a esperar que ele volte. Ainda hoje espero. Ainda hoje tenho esperança que seja ele a bater à porta, ainda hoje espero o momento em que ele volta e me abraça de novo até aos ossos. Só o meu avô sabia abraçar até aos ossos. Até ficar sem ar e ter de lhe pedir, resmungona, para parar. E quem me dera agora que ele nunca tivesse parado.

Há 5 anos a vida mostrou-me que a morte existe, que é real e que não acontece só aos outros. E é por isso que ela paira na minha vida com uma presença demasiado marcante. Agora sei que a vida nos tira as pessoas que mais amamos e que isso pode acontecer sem qualquer aviso, sem qualquer razão aparente. Ter essa consciência mata-me um pouco todos os dias. Era tão mais fácil quando eu acreditava que as pessoas que amo não podem ser levadas de mim.

Mas continuo à espera. E tive de aprender a caminhar enquanto espero, a seguir em frente enquanto acredito que um dia ele irá voltar. Sigo em frente porque é ele que me dá forças para o fazer. Mas como não ir abaixo quando a saudade aperta e quando me apercebo que passados quase 5 anos a dor ainda está tão viva e tão presente?

No fim de tudo isto, só me surge uma definição de morte: morte é esperar. Esperar um regresso que sabemos que nunca vai acontecer. Esperar um sinal que sabemos não existir. E ir caminhando enquanto se espera. Se vale a pena? Não, mas ajuda a continuar.

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