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Upside Down

Um blogue de uma futura (e esperançosa) jornalista, que vê na escrita um refúgio para os bens e para os males da vida.

Upside Down

Um blogue de uma futura (e esperançosa) jornalista, que vê na escrita um refúgio para os bens e para os males da vida.

Apeteces-me

Apeteces-me como me apetece o pôr-do-sol na praia naquele dia em que tu me pediste para ser tua e eu, sem pensar duas vezes, aceitei. Apeteces-me como me apetece aquele olhar que cruzamos quando gritaste "golo" naquele jogo do SLB que nunca mais esquecerei. Soubeste como me fazer feliz a ver um jogo do SLB, já viste? E eu que nem gosto do SLB. Cruzámos olhares e tu sorriste porque sabias o efeito que estavas a ter em mim. Ainda não nos conhecíamos e já me tinhas nas mãos. Como sempre tiveste - e, talvez, como sempre terás.

Nunca percebi porque é que me apaixonei por ti e era nisso que estava a magia daquilo que tínhamos: não sabíamos de onde vinha, nem a que propósito, mas percebemos desde o início que era algo que nos fazia bem e decidimos chamar-lhe amor. Chamámos-lhe amor porque é o nome que se dá a este sentimento, mas ambos sempre soubemos que não era só amor - era algo nosso, algo único, uma paixão trágica e uma devoção intensa. Éramos um do outro porque só assim conseguíamos apreciar a vida. 

O teu olhar foi o culpado de tudo, ouviste? Esses teus olhos azuis (verdes no Inverno, já sei) penetraram a minha alma e disseram-me, tão alto mas em silêncio, que eras o tal. E foste. És o tal. A vida fez sentido durante dois maravilhosos anos porque eu sabia que, acontecesse o que acontecesse, chegava perto de ti e tu irias olhar-me daquela forma - como só tu sabias olhar. Nunca ninguém me olhou dessa forma, sabes? Olhavas para mim como se eu fosse a única pessoa à face da Terra e eu sabia que, naquele momento, podia ser o que quisesse ser. Davas-me a tua mão, olhavas-me nos olhos e sorrias... bolas, nesse momento eu era capaz de segurar o mundo com a outra mão, ir à luta e travar as mais diversas batalhas, pois sabia que, quer saísse vencedora quer perdesse a guerra, tu irias estar lá sempre, a tua mão na minha, os teus braços à minha volta e aquele delicioso "vai ficar tudo bem". E ficava mesmo tudo bem.

Dizem que depois da tempestade virá a bonança, a calma, a paz. Tu foste a calma que apareceu depois das tempestades que fui ultrapassando até te conhecer - e, naquele momento em que te vi pela primeira vez, soube exatamente que era para chegar a ti que tinha lutado tanto. Soube desde o primeiro momento que eras tu a recompensa que a vida me queria dar por tudo aquilo que tinha passado até então. Se a bonança fosse algo concreto seria o teu sorriso, porque não há nada que mais me acalme do que ver-te sorrir - sorris e a tempestade que atravessa o meu espírito desvanece-se, como por magia. 

Apeteces-me como me apetece voltar àquelas manhãs que passávamos debaixo dos lençóis. Se isso não era viver, então não sei o que raio é a vida. A tua pele na minha, o teu corpo no meu e a certeza de que ali éramos só nós, sem o mundo à nossa volta a tentar separar-nos. Apeteces-me como me apetece acordar, olhar para o lado e ver-te dormir. Foi quando te vi dormir pela primeira vez que percebi que eras um anjo, sereno, calmo, de bem com a vida. Encostava-me às tuas asas e deixava-me ficar ali, no meu refúgio, no meu paraíso.

Apeteces-me como me apetece o sábado, o nosso dia de sempre. O som do teu carro a chegar de manhã e as lágrimas que caíam quando ias embora ao fim da noite. O teu sorriso quando me vias. O primeiro beijo do dia e o último beijo da semana. A certeza de que, fosses onde fosses e acontecesse o que acontecesse, teríamos sempre sábado. Chovia em mim durante toda a semana - até trovejava, de vez em quando - e ao sábado fazia sempre sol porque tu sorrias e abraçavas-me e eu sentia-me a dona do mundo. E fui a dona do mundo, sabes? Quem precisa de ter nas mãos um simples planeta quando te pode ter a ti? 

Dizem que nada dura para sempre e nós não fomos exceção. O céu da minha alma escureceu nesse dia. O meu coração vestiu-se de negro e chorou. Chorei com ele. Ainda choro. É a saudade, é o amor, é a certeza ingrata de que nunca mais vais voltar e de que tínhamos tanto para dar. É, também, a culpa. Dóis em mim e não me digam que fui gramaticalmente incorreta - de que me serve ser correta na gramática se não o soube ser na vida? Causas em mim uma dor eterna porque foste embora e eu tive de ficar para trás, a tentar seguir o meu caminho, aos tombos, algumas vezes em contramão e com muitos zigue-zagues pelo meio.

Apeteces-me. Ainda. Talvez para sempre.